A INCLUSÃO É UM ABRAÇO

A inclusão é um abraço.

Como todo abraço, envolve duas pessoas. Como todo abraço, envolve disposição de corpo, mente e alma. Como todo abraço, causa medo e prazer. Como todo abraço, traz conforto e aprendizado. Como todo abraço, é necessária para que continuemos crescendo como seres humanos. Como todo abraço, ela é desejável e importante. Como todo abraço, a inclusão exige de nós um olhar para o outro, a partir de nós mesmos.

Desde que comecei ouvir mais sobre a proposta ousada de trazer para a sala de aula de “crianças normais” os alunos que tinham algum tipo de deficiência – física, intelectual, psicológica – eu sabia que uma hora chegaria a minha vez.

Acompanhei, de perto e de longe, amigas que receberam em suas salas crianças e jovens com problemas auditivos, visuais, motores, cognitivos, afetivos. Vi o quanto todas elas sofreram para conseguir compreender a deficiência explícita de seus alunos, e o quanto tentaram, com tudo que podiam, fazer o melhor por essas crianças.

Acompanhei o descaso das instituições – públicas e privadas – com essa situação, deixando para as professoras e suas famílias a árdua tarefa de “dar um jeito” de praticar a inclusão a todo custo.

Acompanhei também famílias inseguras, educadores despreparados, crianças assustadas, infraestrutura precária, muito choro, muita revolta, muito estranhamento. E por tudo isso, eu tinha medo de quando chegasse minha vez de receber uma criança assim.

Este ano aconteceu. Gustavo apareceu na lista da minha sala com um asterisco, indicando que eu estaria finalmente colocada inteira nessa roda.

Na sala das crianças de 3 anos, o Gustavo chegou risonho. Antes dele, chegaram seus pais, ansiosos e com medo, mas firmes em seu propósito de oferecer a seu filho o melhor que pudessem – inclusive a experiência de ir para a escola. Antes deles, chegou minha coordenadora, parceirona de valor, com o diagnóstico em mãos – transtorno de desenvolvimento global ( termo que diz tudo e não diz nada ). Gustavo não pode andar sozinho, e todas as complicações decorrentes da dependência de não andar.

O primeiro gesto do Gustavo pra mim foi estender os braços para que eu o abraçasse, ao retirá-lo do colo de sua mãe. Uma proposta de abraço acompanhada de um sorriso imenso.

Ali eu perdi o medo, e o abracei. Não abracei só o seu corpo, mas também a idéia de estarmos juntos durante esse período, aprendendo tudo que pudéssemos aprender um com o outro.

E então eu soube que, na verdade, não estava abraçando um diferente, e sim um igual a mim.

A inclusão é um abraço… E as delícias desse abraço relato a partir de hoje aqui, neste espaço.

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3 Respostas so far »

  1. 1

    Meire said,

    Eu que sou de falar tanto, de perguntar muito e quase sempre sem dar o devido tempo pras respostas…rs..,fiquei muda agora. Não fiquei sem palavras apenas por identificar sua genialidade ao escrever (essa já conhecia) mas pela sua disponibilidade de fazer diferença no mundo.
    Não falo da diferença de ter um blog falando de assunto tão importante quanto a inclusão, embora pensar nisso possa fazer-nos pessoas melhores. acredito que vc faz diferença pela pessoa acolhedora, ouvinte, integra que é, mas também pela profissional imbatível nas ações e nas intenções. Diferença por levar nós todos a reflexão sobre o poderíamos fazer ainda para sermos melhores conoco mesmo, com os outros e principalmente com as crianças desse planeta. Diferença pela escolha de ser e de fazer feliz que voc/ê parece reiterar todo dia, independente dos testes do universo.
    No fundo te acho diferente, uma pessoa incrivelmente especial e agregadora a ponto de influenciar todos e sempre para o bem.
    Minha vida ficou bem melhor depois que você apareceu nela. Sei que a de muita gente também…. Vc é capaz de incluir cada um de nós com seus abraços afetivos, reconfortantes, sensíveis e alegres. Inclui todos nós no seu abraço generoso e compartilhado todos os dias de sua vida.
    Sorte do gustavo ter você..e de todos os Gustavos que já passaram pela sua vida…Sorte nossa de vc sempre nos olhar com olhos de ver Gustavo
    Sou sua fã…..obrigadaaaaa por ser quem vc é…..bj

  2. 2

    Sara said,

    Ahhhhhh… Karina!!
    Meire não tinha palavras, e ao mesmo tempo, disse tudo…
    Já entrei nessa ‘roda’ antes, amiga, ao ingressar na PMSP, lembra? Eu lembro… E lembro muito bem a pessoa que estava ao meu lado quando me deram a notícia, praticamente uma hora após eu escolher a escola… VOCÊ! Lembro das surpresas todas ao ‘debutar’, surpresas estas que resisti ‘bravamente’ com vc ao meu lado… Escolher a escola, visitar a escola pela primeira vez, conhecer a CP e imediatamente ouvir: Você vai ficar com o 1º B (o primeiro primeiro estágio a gente nunca esquece…rs), e nessa turma tem uma inclusão (assim, sem jeito mesmo, lembra?). Lembro de todos os medos que tive ao receber a notícia assim, sem saber quem era, como era, sem ver o rosto, sem saber a história…Mas foi um ano feliz, aprendi muito com a Nathália, que este ano, pelo que soube, estreou no Ensino Fundamental no CEU… Que saudades…
    Mas vc falou de abraço… Abraço que inclui… E isso me leva a um outro momento… Praticamente nossa ‘estreia’ em outra rede de ensino… Lembro de chegar na Paulista e ouvir: ” A professora Karina está te esperando” (Quem seria?). Então lembro do abraço… E do seu sorriso… Por isso compreendo bem as palavras de Meire que aqui já escreveu… E sei que, assim como pra mim foi o início de uma história linda de aprendizagem e amizade, pro Gustavo também foi… Desde aquele abraço aqui tão bem descrito…
    Parabéns, amiga, e sucesso… Você sabe que sou sua fã, de carteirinha ou sem carteirinha…rs. Te adoro!

  3. 3

    Adorei o espaço! Adorei o tema! Adorei sua postura e com certeza adorarei os conhecimentos advindos da sua experiência. Também sempre tive medo da inclusão e, apesar de não estar na sala de aula, coordeno 40 professores e 550 alunos em 25 escolas multisseriadas. Nesta miscelânia, na última contagem, atrendemos 43 alunos especiais, das mais diversas deficiencias. Não é fácil, mas com certeza é muito gratificante. Feliz do gustavo e de todas as crianças q passam por suas mãos de anjo.

    Bjo carinhoso.


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