TODOS SÃO INCLUÍDOS

Toda vez que a palavra inclusão é mencionada no ambiente escolar, logo imaginamos “incluir” alguém com uma deficiência explícita. Pensamos em alguém com cadeiras de rodas, alguém com um transtorno mental ou psíquico, alguém que não ouve, não fala ou não escuta bem e que precisará de ajuda extra para conviver e aprender em um ambiente com outras pessoas ditas “normais”.

Toda essa fantasia em torno da deficiência torna mais difícil a discussão e o amadurecimento de educadores e famílias. Minha experiência com o Gustavo me fez acordar para uma realidade – a diferença ( seja ela uma deficiência, uma qualidade, ou simplesmente uma característica ) faz parte do humano. E por isso, todos, em algum momento de nossas vidas, precisamos ser incluídos.

Fiquei pensando nas centenas de crianças que cruzaram comigo nesta vida. Cada um era de um jeito, cada um me via de um jeito, para cada um dei coisas diferentes de mim, de cada um recebi coisas diferentes. Tímidos, agressivos, falantes, inteligentes demais, arredios, desconcentrados, lunáticos, medrosos, gordinhos, magérrimos, crianças com alguma necessidade alimentar ou de saúde sutil, carentes, mimados, agitados, terríveis, abandonados, chatos, malvados, tristinhos ou alegrinhos, famílias complicadas… Cada um deles mereceu de mim um olhar especial, momentos de dedicação, uma conversa individual, um carinho diferente. O Gustavo é apenas mais um deles. Faz parte da profissão de um educador acolher a diferença, e ao mesmo tempo, incentivar o grupo a ser um grupo de verdade.

Fiquei pensando nas vezes em que eu fiquei deficiente de algo por algum motivo. E nas deficiências que tenho até hoje. Quando torci o pé e precisei de uma rampa no meu local de trabalho, pensei na vida das pessoas que usam cadeiras de roda e muletas todos os dias. Não faz muito tempo tive uma conjuntivite fortíssima, e pensei como é horrível letras tão pequenas pra indicar as coisas em quase todos os lugares, quando a gente mal consegue ver. Penso nas minhas dificuldades que não consigo resolver, nas minhas incapacidades, nas coisas que não consegui aprender. Penso nas vezes em que não fui aceita em um grupo ou lugar por não corresponder às expectativas dos outros, pré-julgada. Tudo isso doeu, mas passou. Imagino como deve ser reviver isso todos os dias, todas as horas.

Convivendo com o Gustavo, percebo que mais do que a consciência racional de uma deficiência, seja ela qual for, é preciso sensibilidade e firmeza para encará-la e transpô-la.

A verdade é que todos precisamos ser incluídos. E aí está o bonito e o difícil da coisa – se é ao nos confrontarmos com outros que nos damos conta das nossas diferenças, é também na empatia do que nos faz iguais que encontramos o conforto e a superação. E somos iguais por sermos humanos. Isso não é diferente pra nenhum de nós.

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3 Respostas so far »

  1. 1

    Estela said,

    Querida, que coisa mais delicada isso aqui, hein? Nem vou me delongar em elogios, você sabe que os merece todos, profissional dedicada que é, pessoa linda que sempre foi!

    Pensar a inclusão assim fica mais fácil, claro, mas a questão principal é que existe um lado prático que exige de nós um cansaço fisico mesmo, junto com uma coisa de não saber o que fazer…… Não saber se está fazendo certo, e tenho certeza que você vive isso com o Gustavo também. Nesse sentido a inclusão do deficiente é algo mais difícil de encarar, por ser novo.

    Mas como todos seus outros alunos, o Gustavo tem sorte, e digo mais, é um orgulho saber que a rede pública conta com profissionais do seu gabarito!

    Beijos, adoro você, viu!!!!!!!!

  2. 2

    Maria Helena said,

    Olá, Karina,
    Eu fiquei tão comovida com seu relato.
    Estou longe de São Paulo, sou coordenadora pedagógica e estou com algumas crianças inclusas na escola.
    As professoras choram e se descabelam todos os dias porque simplesmente não conseguem lidar com o diferente.
    Gostaria de pedir sua permissão para usar seus dois textos para acrescentar nossa formação ( prometo que depois te conto o resultado… Nunca vi ninguém falar de inclusão assim, com olhos tão doces, com tanta sensibilidade… ).
    E peço que não pare de continuar escrevendo, porque é muito bom te ler e ver que há possibilidades de mudança a partir da mudança do olhar!
    Um beijo bem grande… E obrigada mais uma vez.

  3. 3

    Roberto said,

    Karininha, eu, que te conheço de loooooongos anos, posso dizer que é uma profissional apaixonada, incansável e imbatível. E por isso contagia tanta gente com esse olhar sensível, você enfeita o mundo, mulher!
    Eu mesmo sempre fui contra a inclusão como educador, por causa da bandalheira que são essas políticas públicas de educação, que jogam as propostas sem dar nenhum apoio aos educadores e famílias. E era assim até ter um filho com problemas e saber como são tratadas as pessoas, como você diz, explicitamente diferentes. Como ignoramos os nossos direitos e como nos acostumamos com o mínimo. É um massacre, você fez bem em dizer – uma dor que revivemos todos os dias, todas as horas.
    Fiquei pensanso se existe saída, e meus olhos estão aqui, marejados, ao saber que tinha que ser você pra me mostrar que sim, existe… E é mais simples do que a a gente imagina, basta abraçar. E quem não gosta de abraço? Aqui longe, queria que meu filhinho tivesse uma professora como você.
    Lembra daquela música que dedicaram uma vez a você?
    “Tudo que ela toca vira ouro…” Bom saber que você continua assim!
    Beijo, com tanta saudade que até dói.


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