UMA RELAÇÃO DELICADA

Todo mundo tem sonhos para a própria vida. E todo mundo precisa dividir esses sonhos com as pessoas que ama. E é nesse clima, de sonho, que geralmente nascem as crianças. O berço de um bebê é montado com muita expectativa de uma criança ideal, imaginada sem defeitos, sem problemas, sem máculas.

Costuma ser um grande choque para uma família ter que deitar nesse berço de sonho uma criança com limitações. Muito choro, muita dúvida, muita negação, superproteção, sentimento de fracasso, muita inconformidade vem. Já ouvi tantos relatos sobre isso. Gente que teve que aprender, de um jeito mais rápido e mais profundo, que amar alguém é isso aí mesmo: olhar a pessoa que está ali, na sua frente, como ela é, e como dizia o Cazuza, não “ficar esperando alguém que caiba no seu sonho”. Gente que teve que aceitar, transpor, superar a limitação, e nisso aprender a lidar com uma vida diferente da maioria das pessoas. Uma vida feita de lutas, de lágrimas, de conquista de espaço e dignidade em uma sociedade estranha, e muitas vezes cruel.

Nesses anos todos acabei lidando com muitas famílias. Mães, pais, responsáveis, irmãos mais velhos, tios e tias que chegam até nós e dividem conosco angústias, dúvidas, acertos e errros. Quando o vínculo entre escola e família acontece de maneira sadia, percebo que os pais e mães confiam em nós. Não só como alguém que cuida direitinho do filho ou filha deles por algumas horas, mas como alguém que pode dividir impressões e idéias e ajudar em um momento de dificuldade, como um parceiro que educa e troca princípios fundamentais na educação dos filhos. Quando as coisas vão bem, alcançamos com as famílias conversas bem além do “cuidado com a mochila do seu filho”; vamos até às questões conceituais que podem mudar o curso do rio da vida de uma pessoa.

Eu admiro muito a família do Gustavo. Pai e mãe dele são pessoas muito, muito corajosas. Tiveram coragem de peitar a insegurança pra deixar o filho participar de um ambiente estranho, com pessoas estranhas. O filho de quem eles têm que cuidar tanto, a quem querem proteger integralmente. E não deve ser nada fácil fazer isso. Sábado passado foi nossa festa junina. E lá estavam eles, radiantes, vendo o filho exposto e feliz, em uma dança coletiva. Foi emocionante para todos nós.

Nas poucas vezes em que conversamos formalmente, percebi que os pais do Gustavo, especialmente sua mãe, eram pessoas fáceis de se lidar, muito esperançosos na melhoria de sua condição atual através do esforço diário de estimulação. E percebi o quanto tem que ser sensível e delicada a nossa postura com famílias das crianças deficientes. Normalmente, eles já chegam muito machucados pela vida. Alguns parecem pedir desculpas por estarem incomodando ( idéia que é reforçada por muitas escolas, públicas e privadas, que tratam essas pessoas com descaso revoltante ). Outras reagem agressivamente a tudo. Outras simplesmente são ausentes… E muitas delas têm histórias tristes pra contar sobre preconceito, discriminação, dificuldades práticas com a questão da deficiência.

Acredito que acolher as famílias, ouvi-las, partilhar de seus anseios, combinar coisas que ajudem a criança, encontrar pontos em comum no projeto de educação que sonhamos para ela – tudo isso ajuda, e muito, o pai e a mãe de uma criança, seja ela como for, a enxergar em nós um bom profissional de educação.

Mas é mais do que isso. Quando converso com os pais do Gustavo, procuro dividir – e a palavra é essa, dividir – com ela as minhas alegrias, medos e expectativas sobre ele. Ali, conversam adultos que querem a mesma coisa – o pleno desenvolvimento e alegria de um ser humano muito querido. E isso me faz mais que uma professora aos olhos deles… Me faz humana. E o Gustavo só tem a ganhar com nosso contato delicado e respeitoso.

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